"É assim o reino maravilhoso de que vos falei...o silêncio que se passeia pelos montes em tardes de sol...e às vezes por entre o taramelar da chuva... o brilho sonoro dos sorrisos puros em caras de pele curtida de sol a sol-É assim o reino maravilhoso em que habito... perceptível apenas a corações claros e com luz, a olhos atentos e a ouvidos entendidos na arte de escutar a música do silêncio..."
No fundo, bem lá no fundo do corpo, mora a alma. Ainda não houve quem a visse, Mas todos sabem que ela existe. E não só sabem que existe, Como também sabem o que lá tem dentro.
Dentro da alma, Lá bem no centro, Pousado numa pata Está um pássaro. E o nome do pássaro é pássaro da alma. E ele sente tudo o que nós sentimos: Quando alguém nos magoa, o pássaro da alma agita-se para lá e para cá (...) Quando alguém nos ama, O pássaro da alma dá pulinhos De contente, Para trás e para a frente, Vai e vem. Quando alguém nos chama, O pássaro da alma põe-se logo à escuta da voz, A fim de reconhecer que tipo de apelo é. (...) Decerto querem também saber de que é feito o pássaro da alma. (...) É feito de gavetas e mais gavetas. (...) cada uma delas tem uma chave para ela só! (...) Às vezes uma pessoa pode escolher e indicar ao pássaro As chaves a rodar e as gavetas a abrir. E outras vezes é o pássaro quem decide. Por exemplo: a pessoa quer estar calada e diz ao pássaro para abrir A gaveta do silêncio. Mas ele, por auto-recriação, Abre-lhe a gaveta da fala, E ela desata a falar, a falar sem querer. (...) Agora já compreendemos que cada homem é diferente do seu semelhante Por causa do pássaro da alma que tem dentro de si. O pássaro que em certas manhãs abre a gaveta da alegria, E a alegria jorra dela para dentro do corpo E o dono dela fica feliz.
E o mais importante - é escutar logo o pássaro. Pois acontece o pássaro da alma chamar por nós, e nós não o ouvirmos. É pena. Ele quer falar-nos de nós próprios. Quer falar-nos dos sentimentos que estão encerrados nas gavetas dentro de nós.
Por isso vale a pena Talvez tarde pela noite, quando o silêncio nos rodeia, Escutar o pássaro da alma que mora dentro de nós, No fundo, lá bem no fundo do corpo.
Michal Snunit
Bem digo, durante a noite, ao meu pássaro da alma para ele abrir a gaveta da fala, mas ele, teimoso, insiste em abrir a do silêncio...e lá vou passando os dias mais caladita...!
domingo, 2 de novembro de 2008
E a vida foi, e é assim e não melhora. Esforço inútil. Tudo é ilusão. Quantos não cismam nisso mesmo a esta hora Com uma taça, ou um punhal na mão!
Mas a Arte, o Lar, um filho, António? Embora! Quimeras, sonhos, bolas de sabão. E a tortura do Além e quem lá mora! Isso é, talvez, a minha única aflição.
Toda a dor pode suportar-se, toda! Mesmo a da noiva morta em plena boda, Que por mortalha leva...essa que traz.
Mas uma não: a dor do pensamento! Ai quem me dera entrar nesse convento Que há além da Morte e que se chama A Paz!
Dizem que sou forte...acho que vou sendo; dizem que sou sensível...sem dúvida; dizem que sou amiga...tento ser; dizem que sou tranquila...mas o mar também é sereno e, às vezes, revolta-se...
O que mais preocupa não é o grito dos violentos, dos corruptos, dos desonestos, dos sem carácter, dos sem ética. O que mais preocupa é o silêncio dos bons. Martin Luther King